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Como preencher uma nota promissória, campo a campo

Preencher uma nota promissória é escrever, nesta ordem, os dados das partes, os valores, as datas e só então assinar. Campo errado se resolve refazendo a nota, nunca rasurando.

O essencial

Ordem
Dados, valores, datas, conferência e, só então, a assinatura
Valor
Escrito duas vezes, em algarismos e por extenso
Se errar
Refaça a nota em vez de rasurar o campo
Nunca
Assinar ou entregar a nota com campos em branco
Nota promissória preenchida à mão em um exemplo fictício: número 1 barra 3, vencimento 10 de setembro de 2026, valor de 2.400,00 reais em algarismos e por extenso, beneficiária Helena Barros Siqueira, praça de pagamento Campinas, emitente Marcos Antunes de Lima com CPF, endereço, data de emissão e assinatura.
Exemplo fictício de nota preenchida. Repare no traço que fecha a linha do valor por extenso: ele ocupa o espaço que sobrou, para que ninguém acrescente palavras depois.

Antes de escrever, reúna os dados

Preencher de uma vez só, com tudo à mão, evita a maior fonte de erro, que é parar no meio e completar depois de memória. Você precisa do nome completo e do CPF ou CNPJ de quem vai receber, do nome completo, CPF ou CNPJ e endereço de quem promete pagar, do valor exato com centavos, da data de vencimento e da cidade onde o pagamento será feito.

Use caneta esferográfica azul ou preta, uma só, do começo ao fim. Lápis e caneta apagável são inadequados para um documento que vale por si mesmo e que pode ficar guardado por anos até ser cobrado.

O que escrever em cada linha do talão

O talão brasileiro segue sempre a mesma diagramação.

Linha impressaO que escreverNo exemplo
A identificação da nota. Havendo mais de uma, numere no formato parcela e total1 / 3
VencimentoO dia, o mês e o ano em que o pagamento pode ser exigido10 de setembro de 2026
R$O valor em algarismos, sempre com os centavos2.400,00
"Ao(s) ... dias do mês de ... do ano de ..."A mesma data do vencimento, agora por extenso10 dias do mês de setembro do ano de 2026
"pagarei(emos) ... a"O nome completo ou a razão social de quem vai receber, e o CPF ou CNPJHelena Barros Siqueira, CPF 987.654.321-00
"a quantia de"O valor por extenso, fechando a linha com um traço no que sobrardois mil e quatrocentos reais
"pagável em"A cidade onde o pagamento deve ser feitoCampinas/SP
EmitenteO nome completo ou a razão social de quem promete pagarMarcos Antunes de Lima
Data da emissãoO dia em que a nota está sendo assinada, não uma data futura10/03/2026
CPF/CNPJ e EndereçoOs dados do emitente, que identificam o devedor numa cobrança123.456.789-09, Rua das Palmeiras, 128, Campinas
Ass. do emitenteA assinatura de quem promete pagar, feita por últimoassinatura
Banda lateralNome, documento e assinatura do avalista, quando houverem branco se não houver avalista

Repare que o talão não tem uma linha própria para a cidade de emissão: ela aparece junto ao nome e ao endereço do emitente, e é dali que a lei a extrai. Isso importa porque, quando a linha "pagável em" fica vazia, é o lugar da emissão que passa a valer como lugar de pagamento. Preencher a cidade do emitente com clareza, portanto, cobre as duas funções.

Onde quase todo mundo tropeça

A frase que abre o talão, "Ao(s) ... dias do mês de ... do ano de ...", pede a data do vencimento, e não a data em que você está escrevendo. A data de emissão tem campo próprio, embaixo, ao lado do nome do emitente. Repetir a data de hoje nas duas posições transforma a nota em um título vencido no ato.

Como grafar o valor sem deixar brecha

O valor é o campo mais sensível do papel, porque é o único que alguém teria interesse em alterar depois que a nota sai da sua mão.

Primeiro, escreva rente ao início do campo, sem espaço em branco antes nem depois dos números, e feche a linha do extenso com um traço até o fim, como no exemplo acima. Espaço vazio em linha de valor é convite para acréscimo.

Segundo, escreva os centavos mesmo quando forem zero. "R$ 2.400,00" é um valor fechado, enquanto "R$ 2.400" deixa margem para discussão sobre o que viria depois da vírgula.

Terceiro, releia as duas grafias antes de seguir adiante, porque elas precisam dizer a mesma coisa. Quando não dizem, existe uma regra legal de desempate, e ela está explicada em o que a lei exige da nota promissória. Cair nessa regra nunca é bom sinal: o desempate resolve o impasse com um dos dois números, e não com o que as partes combinaram.

Assine por último, e nunca em branco

A assinatura é o último ato do preenchimento, depois de reler o documento inteiro. Na prática do papel, isso significa não assinar o talão antes de completar os campos, não assinar uma via de reserva "para adiantar" e não entregar a nota com qualquer linha aberta.

Assinar com campos vazios é o erro mais caro de todos, porque o papel sai das suas mãos com a parte que obriga já pronta e o restante em aberto. O que a lei permite completar depois, quem pode completar e até onde, é assunto do artigo sobre nota em branco e preenchimento abusivo.

Errou uma letra ou um número

Não emende, não rasure e não escreva por cima. Inutilize a via com erro e preencha outra do zero. Nenhuma lei diz que rasura anula a nota, mas o efeito prático é concreto em duas frentes: no cartório, o tabelião examina os caracteres formais do título e a irregularidade formal impede o registro do protesto (art. 9º da Lei 9.492/1997); e, numa execução, a rasura em campo essencial abre discussão justamente sobre o campo alterado, discussão que só termina com prova. Qual falha chega a derrubar o título e qual apenas gera dúvida está em erros de preenchimento que podem invalidar a nota.

Se o pagamento for parcelado

Preencha um talão por parcela, nunca várias datas no mesmo papel. Em cada um, escreva o valor daquela parcela (não o total da dívida), o vencimento dela, e numere no campo Nº como "1 / 3", "2 / 3" e assim por diante. Repita os dados das partes em todos, porque cada folha é um documento completo por si.

O motivo jurídico dessa regra e o que muda na cobrança estão em nota promissória parcelada.

A conferência antes de assinar

Releia o documento inteiro nesta ordem, que é a mesma em que os problemas costumam aparecer.

  1. O valor em algarismos e o valor por extenso dizem a mesma coisa, com centavos.
  2. A data do vencimento é a mesma nos dois lugares em que aparece.
  3. A data de emissão é a de hoje, e não uma data futura.
  4. Os nomes estão completos, com CPF ou CNPJ corretos.
  5. A cidade de pagamento está preenchida.
  6. Não sobrou campo vazio nem espaço aberto em linha de valor.
  7. O avalista, se houver, assinou na banda lateral.

Só depois disso o emitente assina. Se algum item não fechar, refaça a nota antes de assinar, e não depois.

Depois de preenchida

Terminado o preenchimento, o papel muda de mãos uma vez só: a via original vai para quem recebe. Não distribua vias assinadas entre as duas partes, e não guarde uma "segunda original" na gaveta. Se o emitente quiser ficar com registro do que assinou, o que ele leva é uma cópia, marcada como cópia.

Onde a via original deve ser guardada até o vencimento está em onde guardar a nota promissória, e o que exigir no dia do pagamento está em termo de quitação da nota promissória.

Base legal: Lei Uniforme de Genebra (Decreto 57.663/1966), art. 75 (requisitos), art. 76 (o que a lei supre), art. 6 c/c art. 77 (prevalência do valor por extenso) e art. 33 (nulidade de vencimentos sucessivos, que é o motivo de se emitir uma nota por parcela); Lei 9.492/1997, art. 9º (exame formal no protesto).

O porquê jurídico de cada campo está no passo a passo com a base legal e na lei da nota promissória.